quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

UM DIA


Água caía delicadamente na janela, cada gota fazendo um desenho pelo vidro embaçado, dentro do quarto de Anne, Amanrra aproveitava os últimos momentos de sua vida, faltavam 15 minutos e logo o diabo estaria ali para busca-la.
UM DIA
            Não havia tempo apara olhar para os lados, ela tinha que atravessar a rua, ela tinha que chegar logo, antes que a mãe de Anne viesse a buscar. Ela sabia que não deveria ter contado, mas elas iam se mudar, e era a única forma de fazê-la mudar de ideia. Agora a mãe de Anne resolvera adiantar a data da viagem para uma semana mais cedo, e elas não teriam tempo de se despedir, ela não deveria ter contado, mas elas se amavam...
            A chuva caia forte agora, as outras semanas haviam sido quentes como se os céus prendessem a respiração e a água estivesse com medo de cair, o calor era como uma bomba relógio, mas agora, no momento mais drástico a bomba resolvera estourar, e o céu caía em água.
            Não havia tempo para olhar para os lados, mas ela deveria ter feito isso mesmo assim, se tivesse o feito teria visto o ônibus se aproximar, a linha era o 402, e foi na parada esperando esse ônibus que elas deram o primeiro beijo. Ela se lembra até hoje da cor do vestido: um azul leve e livre como Anne, se lembra do sabor e do cheiro da boca dela, e de como ela ainda costumava acordar sentido-os e se lembrando daquele comento, Amanrra usava All Stars pretos velhos e uma camisa xadrez, naquela mesma tarde ela ganharia a pulseira de metal com os “diamantes” de vidro colorido que ainda usava até hoje.  A vida seria um bocado menos cruel e irônica se aquele mesmo ônibus não a atropelasse, mas mesmo assim ele o fez... Agradeçam a Deus ou ao diabo por isso.
            Seus ossos se quebraram como galhos secos, e o sangue escorreu como se ele estivesse com tanto medo que não quisesse mais ficar naquele lugar correndo para longe de seu corpo, seus olhos embasaram e ela percebeu que uma das pedras de vidro se partira, quebrada, a pedra que era de um verde esmeralda escuro, quase um tom de musgo agora estava feita em dois, e ela pensou como a vida é uma coisa frágil.
            Em geral as coisas mais frágeis de todas costumam ser ironicamente as mais fortes, como por exemplo, o coração. Ele bate por todos os dias da sua vida, sem falta, rítmica e incessantemente e por todos o tempo age. Ele está lutando, se movendo e fazendo seu corpo mover por todas as horas, ele sempre está lá a cada respiração e no exato segundo em que ele para, você morre. O coração mesmo sendo o músculo mais forte do corpo humano, o mais incessante e resistente é ainda assim o mais frágil. Uma mera palavra, um sorriso não dado, ou um simples olhar são capazes de destruí-lo, o quebrar totalmente. O coração é forte como diamantes de vidro.
            A ambulância chegou rápido, e o desfibrilador tentou colar os pedaços partidos de seu diamante cardíaco, mas ele falhou, e logo todo o mundo escureceu para ela.
...
            Anos pareceram se passar nos segundos entre a massagem cardíaca e o próximo choque do desfibrilador. Seu coração parara por 20 minutos, muito menos tempo do que ela o sentiu parar a primeira vez que a viu. Anne estava sentada em cima de um skate velho sorrindo, e contava alguma história maluca que só fazia sentido por causa das imitações que ela usava para descrever as pessoas e o lugar.
            Assim que ela saboreou o ar em uma profunda respiração, se levantou e começou a correr, a ambulância e os paramédicos gritaram, mas ela não parou, afinal já entardecia, e ela só tinha esse dia. Ela não deveria voltar, aqueles 20 minutos deveriam ter sido a eternidade, e ela deveria estar morta, mas fez uma promessa para  um anjo de asas douradas e cabelos loiros, “portador da Luz” ele se apresentou e com um sorriso disse: “ Sou Lucifer, a estrela da manhã, e se você aceitar o que tenho a oferecer, posso te dar o resto do dia” .
Todas as memórias pareciam embotadas de uma poeira que as lembranças antigas possuem, e o encontro parecia ter sido há mil anos, mas ela sabia que tinha sido real. Ela trocara a eternidade por mais algumas horas, e tinha que correr.
            Quando Amanrra alcançou a casa de Anne, o sol já havia se posto, e a noite engolia o dia e o também o resto de seu tempo. Ela tinha mais algumas horas...
            Pulou o muro e entrou pela janela do quarto que ela sabia estar coma tranca estragada, lagrimas escorreram quando ela se lembrou de que seu amor só chegaria em uma hora da faculdade, eram quinze para a meia noite e isso deixava para ela quinze minutos...
            Ela passou uma hora pensando em que ia falar, foi mais difícil do que dizer a primeira vez eu te amo, e no fim ela descartou todas as palavras... E então a maçaneta girou e a porta se abriu.
            Água caía delicadamente na janela, cada gota fazendo um desenho pelo vidro embaçado, dentro do quarto de Anne. Amanrra se levantou e correu para ela, 15 minutos  ela tudo que ela tinha, suas palavras foram abafadas, e seus sorrisos temperados em lágrimas, e desse reduzido tempo, o maior beijo do mundo surgiu, no inicio apreçado, e depois mais devagar, e com a grandeza que vem de pequenos inícios, o beijo e estendeu, até a chuva parou de cair, e corações param de bater...

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Azul e Dourado


Azul e Dourado
As sereias, porém, possuem uma arma ainda mais terrível do que seu canto: seu silêncio” Franz Kafka.

                Das mais profundas águas do mundo, onde a luz solar é rara, e onde o brilho das perolas luminosas fazem o fundo do mar ser pontilhado com luz como o céu estrelado é, ela veio. Uma filha do mar e das águas, pequena e gentil sereia.
                Suas escamas em sua longa calda eram de um azul tão profundo e brilhante, quando o azul do mar banhando pela lua, a cor metalizada parecia possuir mil camadas, e em cada camada um novo tom de safira se revelava indo da cor que o céu tem ao nascer, até o mais profundo tom do fundo do mar. Junto com as escamas azuis, dividindo a delgada parte peixe da sereia, e ainda nos antebraços, escamas douradas se estendiam, como centenas de moedas de ouro polidas por mil ondas e com um brilho mais vigoroso que as estrelas no ocaso. Sua calda era como um grande oceano de ouro e safira, e de longe parecia o sol refletido nas águas do mar.
                Seus cabelos eram ruivos, e possuíam tantas ondas quando a mais bela praia poderia possuir, e cada um dos caracóis vermelhos e brilhantes caia levemente sobre seus ombros, as escamas douradas em seu antebraço davam um ar de leveza e chamavam a atenção para cada movimento seu. Pendia de seu pescoço um longo colar de pérolas, e de uma de suas mãos uma pulseira de esmeraldas. Porém nenhum brilho se comparava ao seu sorriso, e nada, nenhuma maravilha do mundo fazia par a sua boca. Seus lábios eram cálidos, macios e firmes, eles eram carnudos e quando entre abertos eram a mais desejável porção de pele a se beijar que existia. Seu tom era avermelhado, levemente rosa e transparecia desejo.
                Como toda sereia seu canto era divino, como o prazer moldado ao vento em forma de voz. Quando cantava todo o mundo fazia silêncio e parecia prender a respiração os corações paravam, só ousando voltar a bater quando sua voz cessasse.
                Essa sereia de olhos azuis como o mar, certa noite resolveu nadar até a praia, ela sempre ficava muito admirada com as luzes da cidade e adorava os brilhos dela, Ao subir a superfície, e colocar a cabeça para fora d’água notou que a praia estava fazia, e as luzis na cidade eram muito maiores e mais fortes, incluindo um grande círculo com luzes multicoloridas que girava distante. Uma música animada e forte subia ao ar, e toda a cidade parecia estar reunida naquele local.
                A sereia de corpo delgado e longo, muito curiosa resolveu que poderia ir lá, ela possuía um elixir especial, que somente sua família sabia produzir, e que dava as sereias pernas de humano por uma hora, após esse tempo, porém ela deveria voltar para a água do mar, se não esqueceria quem ela é até beber de novo dos oceanos de onde veio. Ela mergulhou fundo até sua casa submarina, e de dentro de uma ostra dourada retirou o elixir. Nadou afoita e curiosa, animadíssima para encontrar o mundo dos homens.
                Ao chegar à praia ela foi o mais perto da areia possível com sua calda, e quando já sentia os grãos brancos sobre seu corpo tomou o elixir! Suas escamas douradas e azuis caíram todas juntas, formando um vestido natural o qual ela vestiu, suas unhas dos pés eram alternadamente azuis e douradas, dos tons de suas escamas. Ela procurou algo para tapar os seios, e logo encontrou as escamas douradas que caíram de seus antebraços, as amarrou com algas marinhas e delas fez para si um biquini.
                A princesa começou a andar, seus pés eram sensíveis e o mais leve roçar de grama ou vegetação provocavam nela cócegas. Após momentos andando ela alcançou as luzes tão amadas e percebeu que todas as pessoas da cidade realmente estavam lá. Um grande parque itinerante havia parado na cidade, e suas mil luzes se misturavam com as daquele céu. Ela sorriu, e ficou muito admirada com todas as coisas, o tempo ali parecia não passar.
                Após fazer satisfazer todas as suas curiosidades ela resolveu realizar seu maior desejo, e após se esconder e enganar as pessoas que cobravam tíquetes, ela entrou na roda gigante, sentou-se na cadeira que subia e começou a contemplar o mundo, olhou toda a cidade de cima, e notou que suas luzes eram dali mais brilhantes que as do céu, até que a cadeira chegou ao topo da roda, de repente ela simplesmente não sabia o porquê de estar ali, e ao olhar para o horizonte viu o mar e sentiu uma profunda vontade de ir para lá, mas já não sabia o por que. O tempo parecia não passar ali, mas ele passava.

Yarin S. de Melo.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Unha e Olhos.


Unha e Olhos.
            A meia-noite chegava junto da chuva, e todo o frio do mundo se concentrava naquele quarto, como se o sol tivesse apagado, e a muito girássemos no espaço vazio, em um mundo abaixo de zero. O cobertor de nada adiantava, o frio me perfurava como faca, e como uma lâmina ela rasgava o calor de meu corpo, e partia os ossos. Cada assopro como uma respiração da morte.
          Eu estava ofegante, e meu coração batia forte, mas contra as aparências o que acontecia comigo era uma das piores coisas que se poderia acontecer na cama. Sozinho, deitado o suor da noite congelava, e era como repousar na terra fria onde se enterram mortos.
...
            Acordei! Eu mal podia sentir meu corpo, e tudo que ocupava minha mente era respirar. Eu demorei longos minutos só percebendo minha respiração, concentrando minha percepção torpe no movimento de ascensão e decadência do meu peito. Sentindo cada batida do meu coração. Até que então senti uma profunda DOR.
            Era como algo cortando minha pele. Uma pinça aguda que fendia meus tecidos, e abria minha carne. Tentei me debater, mas meu corpo estava paralisado, e sem me concentrar, eu mal podia colocar ar nos pulmões.  Foram longos segundos, que pareceram décadas, e como décadas de vida, me forneceram uma experiência terrivelmente única. Após poucos momentos, quando minha mente desanuviou percebi que a dor que eu sentia vinha dos meus olhos, e imediatamente notei as sombras ao meu redor, pensei que estava cego, e que as trevas seriam meu novo lar para sempre, até notar algo peculiar. Esquadrinhando cada milímetro de meu rosto, notei que na verdade ainda enxergava, porém não estava nem de olhos abertos! Algo, uma mão terrível, uma garra, unhas longas como a de uma mulher, fechavam meus olhos, com um forte aperto em minhas pálpebras, que as cortavam. Senti o ardor do sangue em contato com os frágeis tecidos que compunham meu sentido da visão, senti lágrimas vermelhas escorrendo, e pior, senti que não conseguia mover meu corpo para escapar de tal terrível aperto.
            Tentei me mexer minhas mãos, mas nenhum músculo me obedecia, eu estava paralisado, enquanto a criatura continuava seu cortante aperto temi encontrar ali o eterno sono. Me forcei a enxergar. Inútil tentativa! Tolice que só fez o sangramento piorar, eu sentia as unhas cortarem cada vez mais fundo, e temia que elas cortassem totalmente a carne e chegasse a minha retina, podia quase sentir o arranhão direto em minhas vistas, e sentia a unha, por trás da fina pene que protegia as janelas de minha alma.
            Forcei meus olhos a abrirem de novo, e dessa vez, o sangue morno e viscoso me ajudou, aos poucos senti o aperto afrouxar, deslizando lentamente, meu peito se encheu de alegria, e pensei que talvez, ainda fosse ver luz novamente, porém, tudo isso acabou. Em um rápido bote, como uma jiboia que movimenta a cabeça para engolir grandes pedaços inteiros, as mãos, com seus polegares e indicadores, agarraram minhas pálpebras novamente, e eu senti o raspar áspero e cruel das unhas em meus globos oculares, unhas essas que perfuravam minhas pestanas as transpassando e me traziam a maior dor do mundo. Meu coração disparou, e em um ato alucinado forcei os músculos de meu rosto tentado escapar das mãos que me prendiam, uma das pálpebras se rasgou, e eu senti a outra escapar lisa de sangue por entre os dedos da criatura. Meio cego vi, passando pela porta correndo, deixando um rastro de sangue, a cauda branca de um vestido, e pés tão brancos quanto. Minha visão era turva, e logo o branco que vi se substituiu pelo vermelho do sangue em meus olhos. Respirei fundo, aliviado, pois agora podia me mexer, mas tudo que eu queria era ficar parado, e esquecer, as longas unhas, e a agonia que o corte ocular pode 

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Velhos deuses.


 Velhos deuses.
            A chuva parecia o grito de fúria de um dia quente, abafado e desesperadoramente monótono. O vento soprava furiosamente, como o lobo que assopra a casa de contos de fadas só para depois se banquetear da carne feérica deles, e não se via ninguém na rua. A vida da cidade parecia se esconder nas sombras que cercavam cada prédio, que permeavam cada casa e beco e abrigava perigos em cada esquina. Cortando todo o silêncio urbano, uma viatura deslizava pela noite, com as luzes da sirene gerando reflexos vermelhos da cor do inferno no asfalto negro e molhado do centro urbano. Em meio a todo esse cenário, quase que se esgueirando pela cidade, um jovem percorria os caminhos entre os prédios habitacionais e as grandes construções que abrigam todos os tipos de negócios, já passava da meia noite, e com certeza não era seguro estar ali. Ele caminhava, procurando uma janela entreaberta, ou qualquer brecha pela qual ele poderia entrar e roubar alguma coisa, quando de repente o som do vento se moldou como um gemido, seu sangue gelou, ele apertou o passo e com medo do desconhecido prosseguiu sua busca. Arthur pulou uma cerca baixa, de pouco mais de um metro e meio, um arame solto na grade arranhou sua perna, mas a essa altura ele nem podia sentir a dor. O sabor da vida trasbordava em seu corpo, e a adrenalina o fazia se sentir poderosamente aguçado, nada o fazia se sentir mais vivo do que roubar.   Ele caminhou cuidadosamente pelo chão evitando as poças d’água, e se apoiou na janela semi aberta de um apartamento no térreo de um velho prédio na periferia da metrópole. Ergueu a cabeça por sobre vasos que adornava a borda da janela, e viu através dela uma habitação escura e aparentemente vazia. Deslizou a janela para cima e pulou para dentro com a agilidade de um gato, e começou a caminhar pelo apartamento. Logo de cara estranhou o lugar, ele causava nele uma estranha sensação, como se algo ali estivesse errado, como se ele invadisse um lugar particularmente inapropriado para todos que pudessem se chamar de humano. A cada passo ele se sentia mais perdido, tonto e ligeiramente deslocado, ele experimentava a sensação que se tem quando se sonha algo estranho. Caminhou mais um pouco e de repente a penumbra tomou conta de seus olhos, por breves momentos se tornou cego, e caiu no desespero do desconhecido, até que percebeu que a luz dos postes que iluminavam fracamente o apartamento tinham se apagado, tão logo percebeu isso notou uma luz dourado-acobreada que fluía de um quarto sem portas, a luz parecia se propagar só até certa parte do corredor que dava acesso ao quarto, e então parar. O dourado parecia ser velho, e era tão decadente quanto à luz vermelha de um sol moribundo e antigo. Mesmo com medo, ele caminhou e cada passo era como uma queda para a insanidade, o cheiro de mofo e café do apartamento foi dando lugar a um metamorfoseaste e nauseabundo cheiro que ele não conseguia identificar, mas esse cheiro fez Arthur se lembrar de fogo, de sua infância e neve, o que era muito estranho, pois ele sempre vivera no Brasil, e nunca viu neve em sua vida. Quando alcançou a porta viu, sentado em uma velha poltrona, uma criatura que aparentava ser um homem, mas era destoante de mais para isso, e algo nele fazia seu cérebro querer duvidar daquilo. O ser era alto, devia ter mais de dois metros de altura, mas mantinha todas as proporções de um humano normal, ele usava um roupão com a cor de um vinho tinto desbotado, meias e uma calça de moletom, mas havia nele algo que cheirava a magnífico, era como o cheiro que o ouro desprende na nossa imaginação. talvez fosse a postura, como a de um rei em um trono, ou a feição que o ser tinha, mas ele parecia ser anti e importante. Ao ver o intruso, o velho sorriu, seus olhos pareciam ser antigos, e já terem visto de tudo e com a face de quem faz um logro falou:
- Oh veja só o que temos aqui, um ladrãozinho tentando roubar um mestre, temo meu caro, que se eu te matar não exista um valhala para você, isso se essa vida de ladrão pudesse  te levar até lá.
            Arthur recuou, mas de súbito notou que já existia mais chão atrás de si como se o caminho que ele fizera para entrar fosse agora uma longa estrada e as paredes acabavam, junto com o assoalho em sombras infinitas, como o espaço.
-Venha até mim garoto.
            E o chão começou a desaparecer atrás de si, o forçando a se aproximar.
-O que... O que você está fazendo.
            E o chão parou de se mover. Arthur já estava a um metro do velho ser, e ainda com medo perguntou:
- Quem é você ?
- Me chamam de Lothur, apesar deu ter muitos nomes. O velho nem mesmo se importou em saber quem o garoto era, e soltou com um tom zombeteiro:
- Eu sou um deus garoto.
- Como isso pode ser verdade? Eu não acredito em deus ou deuses isso não é real.
             Por um breve momento, a luz dourada fraquejou, nada mais demorado que um segundo, um piscar de olhos, e então ela voltou a brilhar.
-Ora garoto -e a expressão que ele tinha agora era levemente perversa- o que é a “verdade”? Onde ela reside? Como você a encontra? Se eu te empurrar agora para trás você cai, despenca em um abismo negro, você vai sentir seus ossos se quebrarem, como quem cai de verdade. Vai sentir dor, como quem cai de verdade. E provavelmente vai morrer, como todos que despencam de uma grande altura, e ainda assim se eu te empurrasse você cairia nada mais do à medida exata da sua altura, então me diga garoto, o que é a “verdade”?
            Arthur olhou para trás, e o chão já havia voltado a seu lugar, assim como todo o apartamento, mas algo o fez ficar.
- Garoto, a verdade é aquilo em que você acredita, deuses existem por que acreditam neles, somos a expressão de anseios humanos, vontades e brincadeiras, somos signos, na definição da palavra, pois somos uma união de significados, isso são deuses garoto, ideias criadas por pessoas, ícones reconhecíveis a todos.
Pela primeira vez o garoto apresentou certa firmeza na voz:
-Mas Deus não existe, não é um ser palpável real, tão pouco o diabo é.
-Veja garoto, o Deus a quem você se refere, é tão real quanto os significados são para quem neles acredita, deus, qualquer um deles, é só uma união de significados, a questão é que Esse Deus é uma tentativa de enumerar tantos significados e de se tornar tão geral, que acaba não se tornando sólido, existem tantas pessoas falando em nome dele, e ele é por natureza uma união de tantas naturezas, que não se pode defini-lo, garoto, deuses tem nomes não só para serem evocados, ou destruídos, mas para se tornarem reais, um deus sem nome, acaba por se tornar significados sem signo, como um senhor não-sei-de-que.
O garoto falou:
Então você é uma união de significados, que se torna uma imagem?
-Sim garoto, disse ele, você começa a entender, eu não sou real, não existo fora da mente e dos sonhos dos homens, sou a crença que um povo tem em algo, é isso que deuses são.
O garoto então deu um passo para trás e disse:
-E se eu não acreditar em você? E encurralado o velho deus respondeu:
-Então para você eu não sou real.
E desta vez quem sorriu com logro foi o garoto, enquanto o velho deus ilusionista desaparecia. Pois ilusões são como barulhos na noite, são só impressões, coisas que nos chegam aos sentidos, mas tem por fim a força que acreditarmos que elas tem.
Arthur pulou a janela e ganhou novamente as ruas, mas dessa vez ele não temeu o assovio do vento. E nem o desconhecido.

Yarin S. de Melo

Um nome na lista de Lasem


Nicolle, um anjo ruivo de caracóis macios e brilhantes repousava no peito do cigano, suas mãos macias e brancas desceram até o braço em um movimento inconsciente dos que se faz durante o sono, sua mão parou perto do braço de Larsem, perto de um dos nomes da lista em sua tatuagem, Este que estava acordado a observando dormir se lembrou daquela noite a tantos anos atrás, leu mais uma vez o nome riscado, e se lembrou de tudo que aconteceu:
            A noite se estendia fria como um véu negro que encobria toda a cidade. A névoa e o vapor marinho se erguiam acima dos prédios e as luz dos postes eram um brilho apagado e amarelado, como memórias de antigos sorrisos. Ao longe, estridente e agressivo como o rosnar de uma fera rouca, o som do motor de uma motocicleta ecoava. Cruzando as brumas e fazendo-as desaparecer. O piloto a conduzia com habilidade, e com uma freada rápida, parou a moto em frente a um velho casarão abandonado, em um bairro que outrora fora rico, mas que agora não passava de um amontoado de tabuas podres e memórias do passado. Ele desmontou da moto, fechou o zíper da jaqueta escondendo assim os colares que pendiam de seu peito, colares claramente ciganos, descansou o capacete na manopla da motocicleta, verificou as duas pistolas, uma com munição incandescente, caso encontrasse outro de sua espécie, e a segunda com munição normal, tocou o velho canivete dobrável e sentiu o peso do colete a prova de balas contra o peito, respirou fundo, inundando os pulmões de um ar do qual já não precisava e se lembrou dos planos que tinha feito. Adentrou a casa.
            Já fazia 25 anos dês de que Larsem havia voltado da guerra, seu filho já estava na cama doente de mais para viver a três décadas, e já era um homem frágil e ressequido, esse pensamento preocupou o vampiro por alguns momentos, mas ele se acalmou pesando que talvez a necromante da qual havia ouvido falar pudesse cura-lo, tentou afastar a preocupação da mente a substituindo por fúria e vingança, e conseguiu. Nessa noite ele pretendia executar um dos nomes de sua lista, um vampiro ambicioso que havia se tornado inimigo dele ainda nos tempos da guerra. Esse vampiro, Thomas Montes, havia se aliado aos nazistas em busca de poder, pensando que talvez se eles ganhassem ele poderia se tornar uma pessoa de destaque naquele novo regime, foi juntamente com seu criador que Larsem o enfrentou pela primeira vez, juntos eles quase o mataram, porém o bastardo fugiu desesperado da batalha.  Cinco anos depois Logular o encontraria na sua cidade, como um dos xerifes e um dos queridinhos do maldito príncipe Emiliano, ele foi um dos principais responsáveis pelos pedidos negados do vampiro, em abraçar seu filho como um membro. Juntamente com Emiliano e Marcos Aurélios, um vampiro de origem grega que servia como conselheiro pessoal do príncipe.
            Logular entrou na casa, ele sabia que o velho vampiro, antes xerife e com grande influência na cidade, estava agora em desgraça, desde que tentou roubar dinheiro do cofre do príncipe para pagar dívidas de jogo, ele já tinha sido banido do convívio com os do seu clã por tentar roubo similar. A casa era feita de madeira, e por frestas a luz entrava, alongando sombras e as desfazendo em outros lugares, o pequeno laguinho que existia na parte de trás da mansão liberava uma névoa pútrida que permeava toda a casa com um apropriado cheiro de morte. O vento que entrava pelas falhas do telhado assoviava como um velho palhaço de circo, rindo hediondamente de uma piada cruel. O piso rangia com os passos do vampiro de cabelos negros que iam até os ombros e de barba, mas isso não era um problema, pois toda a casa rangia, as vezes parecendo uma armadilha prestes a desabar. O salão principal possuía um grande candelabro que outrora fora dourado, agora, muito dos cristais haviam caído, e a ferrugem o corroia, grandes armários de livros enfeitavam as paredes, e cadeiras velhas e podres se acumulavam aos cantos.
            Logular suspeitava que o vampiro dormisse em um dos quartos grandes da casa, talvez no sótão ou no porão, Larsem procurou refugio em um dos cantos do salão e fechou os olhos, respirou fundo e grunhiu como um rato, atraindo a criatura imunda a sua presença, com um sussurro ordenou que ela buscasse pelo inimigo, ele sabia que era um casa grande, e que o rato demoraria, e ele não tinha tempo a perder, melhor seria, como ele havia planejado antes, queimar a casa toda, mas isso com certeza traria consequências com os outros vampiros da cidade, e ele decidiu que uma morte silenciosa seria uma solução melhor. Larsem aguardou o rato por alguns minutos, mas decidiu procurar por si mesmo, o rato o avisaria, caso encontrasse o vampiro primeiro. Ele penetrou pelo sacão principal, subindo escadaria à cima, ele havia resolvido procurar nos quartos da parte de cima da mansão, esses que eram antes mais luxuosos. De arma em punho subiu as escadas, caminhou silenciosamente verificando de quarto por quarto, sempre prendendo a respiração antes de abrir uma das portas, essa estratégia, ele logo percebeu, era tola e inútil, ele não teria chances em um combate físico direto, e precisava descobrir uma forma melhor de agir, logo ele desceu até o saguão e procurou um bom lugar, para ver os acontecimentos. Logular resolveu chamar a atenção do vampiro, e derrubou um grande armário do salão principal, ele ficou atento e não percebeu quando um lobo negro como o lago da mansão pulou e atacou, a fera quase o acertara, e ela veio do nada, na certa o vampiro estava transformado em um morcego antes, e saltou em forma de lobo do ar, a fera arreganhou os dentes e rosnou, tornando a falta de visibilidade da casa por causa da névoa ainda mais assustadora, a besta atacou de novo, arremetendo conta Larsem que esperava e parecia ter dificuldades de reagir, ele tentou recuar e ficou posicionado exatamente no centro da sala, quando o lobo pulou sobre ele, com presas a mostra e boca aberta, a imagem do vampiro desapareceu no ar, uma ilusão, a especialidade de Logular, o lobo que caiu no centro da sala ficou sem reaço por alguns segundos, e foi tempo o bastante para Logular alveja as correntes que seguravam o velho candelabro, um grande aro de 200gk de cristais e ferro pintado de dourado, agora enferrujado pelo tempo.
            O lobo tentou reagir, mas antes que tivesse tempo Larsem o alvejou, eliminando qualquer chance deste correr, Logular jamais usaria suas balas incandescentes dentro de uma casa de madeira, a chance de queimar tudo lá dentro era grande de mais, e por isso ele usou uma bala comum. O candelabro se espatifou em cima da fera, que gemeu e rosnou, ela não estava morta, mas bastante ferida, Larsem disparou mais três vezes até a fera se metamorfosear em um morcego, escapando assim do aperto letal do candelabro, ela tentou alçar voo, falhou uma vez, mas depois ganhou o ar, Larsem tentou a acertar, mas errou e o morcego arrebentou uma das velhas janelas da mansão, indo em direção ao velho lago e a liberdade, se o vampiro escapasse e denunciasse Larsem este estaria em sérios problemas, pois o que ele fazia era um crime muito mais punível do que tentar roubar um cofre.
            Logular correu para fora da mansão a cruzando, ele sabia que o inimigo não voaria longe, e que logo voltaria à forma humana ou de lobo para caminhar, pois não teria força para se manter no ar por muito tempo, sabia também que se esperasse de mais o inimigo poderia se curar, e restaurar suas energias bebendo de algum animal nas imediações da casa. Assim ele correu, avançando rapidamente ele tentou avistar o inimigo, mas um morcego a noite e no escuro não era algo fácil de se ver, resolveu convocar pássaros noturnos para ajudar a caçada, e três corvos surgiram para o servir, ele os colocou em busca, tentando forçar o inimigo a assumir uma forma maior e mais fácil de ser avistada, ele sabia que toda a missão só tinha funcionado por que Lilandra, uma vampira que ele havia conhecido tinha fornecido as informações da localização de Thomas, seu inimigo. A vampira era muito bonita e parecia interessado nele, Logular só tinha amor para a vingança, mas pensou que talvez ela pudesse ser diferente. Larsem escutou o grunhir de um dos corvos, e foi em direção à localização do barulho, ao chegar lá foi surpreendido pelo lobo, que o atacava já totalmente curado e são, e naquele momento, ele soube que alguma coisa estava errada, a fera só poderia se curar assim se tivesse se alimentado, caso contrario, dado o gasto de energia e sangue com as rápidas transformações, ele não teria forças para uma cura completa. Larsem tentou se desvencilhar, mas as presas e garras do inimigo o dilaceravam, um poema em carne cortada e sangue, e se ele não pensasse rápido logo estaria morto, enquanto tentava se desvencilhar chegou a conclusão que ele só poderia estar sendo esperado, e por isso não encontrou nenhum animal vigiando a casa, pois os vampiros metamorfos, assim como ele, também podem comandar as feras. A questão é quem a única outra pessoa que sabia o que ele ia fazer naquela noite era Lilandra, mas ela havia o ajudado, não podia ser ela... A dor fez Logular voltar a prestar atenção na briga, a fera havia mordido seu braço e fazia uma força tremenda, quase o arrancando fora, de fato mais alguns momentos e ele seria desmembrado, Larsem não tinha escolha, teria que agir rápido, lá fora a noite era muito escura e quase não haviam estrelas no céu, a lua era como uma cicatriz prateada, as névoas do lago enchiam o ar com um cheiro podre, Logular sacou o canivete dobrável e  enfiou em um dos olhos da besta, o globo ocular estourou e a órbita se encheu de sangue, o lobo afrouxou a mordida por alguns instantes e foi o tempo que Larsem precisava para se soltar do aperto mortal da fera. Ele empurrou a besta para longe, e recuou, seu braço esquerdo estava inutilizado, o lobo sacudiu a cabeça, fazendo a lâmina voar longe, logo voltaria a atacar. Larsem teve tempo de sacar uma de suas pistolas, mas não sabia se era a de balas comuns, ou as de munição incandescente, essas ultimas resolveriam com certeza o problema, mas ele não estava disposto a esperar pela sorte, e disparou. O tiro pegou no peito do lobo que se preparava para correr, e estava a dois metros do vampiro cigano. Demoraram alguns momentos, até que a as chamas irromperam e o lobo logo correu desesperado em busca de salvação, foram 10 metros correndo, até que ele se jogou no lago pútrido, e as chamas se apagaram, o inimigo já não tinha mais como combater. Assim que o fogo se extinguiu, se percebeu que nenhum ferimento físico existia no lobo, que agora voltava a forma humana, as ilusões na maior parte dos casos, só ferem a mente das pessoas, porém as sensações que elas causam são reais o suficiente para aterrorizar até mesmo  maior dos predadores.  Larsem se sentiu aliviado, caminhou em direção à fera e disparou mais algumas vezes, ela afundou no lago, o sol cuidaria dela ao amanhecer, Larsem se virou, mas a visão que ele teve não o agradou, ele viu Lilandra com uma arma apontada para ele, a uma distancia de 15 metros, ele falou, com um tom de voz cansado:
            -Então você realmente me traiu? -suspirou e disse- Estou realmente decepcionado.
            -Era fácil de mais, matar um vampiro que não é tão amado pelo príncipe, um cigano        ladrão e amaldiçoado, ajudar um vampiro exilado e poderoso, e ainda ganhar fama           entre os membros, era um bom plano, eu só precisava avisar o seu alvo, e ele te       mataria, eu não esperava que você fosse ser tão esperto a ponto de o matar, se             esconder em um armário e usar uma ilusão   para o atrair para o centro da sala foi            muito sagaz, parece que o seu clã é realmente esperto, pena que você vai            morrer.
            Larsem então disse enquanto sacava a arma:
            - você sabe que uma bala não vai me matar, nem cinco ou dez delas, eu posso me curar com       facilidade,
Lilandra sorriu e falou:
            - A quem você quer enganar? Você está ferido, com um braço totalmente destruído, e    balas não vão me afetar muito mais do que a você, vamos ver quem acerta primeiro.
Larsem falou com tom de aviso e ameaça:
            -Eu tenho munição incandecente, um tiro e você estará perdida, você era atraente,           engraçada e forte, eu gostava de você, não me faça te matar.
Lilandra sorriu e apontou a arma, enquanto dizia:
            - eu não sou tola, eu vi que o fogo da munição era ilusório, e se eu sei que é uma ilusão ela não funciona em mim, pode atirar!
Larsem sorriu triste e assim o fez, a bala foi com um brilho vermelho em direção do peito da vampira, e quando a tocou, a fez entrar em chamas, ela correu desesperada, mas caiu antes de alcançar o lago, e queimou até a morte. As chamas negras crepitavam, e os ossos carbonizados estalavam, quando Logular disse com um sorriso, triste e sarcástico:
            -Dessa vez eu saquei a pistola certa.
E sem dizer mais nada se virou e partiu, caminhou em direção a sua moto... em direção à noite.

Yarin S. de Melo

            

O Prestidigitador


O Prestidigitador
            Atrás de si a fumaça do circo em chamas dava um tom cinza ao céu nublado, e a cor de chumbo das nuvens era cortada por fitas elétricas prateadas, como se deuses lutassem lá em cima. Sentado na calçada, de cartola e smoking o velho ilusionista observava as luvas, antes brancas agora possuíam o tom vermelho do sangue que as empapava, e com um suspiro, recordou...
            Era o terceiro show da noite, o que somado ao dia quente e abafado de baixo das lonas o fazia tontear de cansaço, mesmo assim ele falou em voz alta:
-Senhoras e senhores, jovens aqui sentados, para essa mágica agora, eu irei precisar de um assistente, alguém disposto a se aventurar pelo insólito mundo da magia, algum voluntário?
            Na arquibancada quase vazia do velho circo decadente, poucos pareciam estar se importando com o show, e desses menos ainda se importaram com as palavras dele.
-Vamos lá meus caros, não há aqui ninguém com coragem para enfrentar esse desafio?
            De repente então, o prestidigitador escutou um grito em desafio, e um garoto largou da mão de sua mãe e falou:
-Eu sou corajoso, vamos ver como você vai me fazer sumir!
-Ah temos um jovem de coragem, venha criança, vou te mostrar o sabor da magia, para esse truque eu preciso que você suba nessa plataforma e entre nessa caixa mágica.
            O garotou se dirigiu até o palco, e depois entrou em uma longa caixa de madeira posicionada verticalmente, com uma porta pintada com losangos rosa e amarelos, por dentro a caixa era pintada de preto, e aquele era obviamente mais um truque qualquer com fundos falsos. Porém, por um erro pequeno, provavelmente causado pela distração de se fazer o mesmo show três vezes, ou pelo cansaço, dessa vez, ele falhou. E logo quando abriu a porta anunciando que o menino havia desaparecido, uma multidão vê vaias tomou conta do circo, enchendo a velha lona com gritos e escárnios e o pequeno grupo, que em riso parecia com uma multidão começou a pedir seu dinheiro de volta, e a gritar que aquele circo era ridículo. Tão rápido o riso virou fúria, e logo o dono do circo, que também era apresentador e palhaço entrou no picadeiro correndo, com o rosto meio maquiado. Não era possível saber se ele estava branco pelo pânico, ou se sua tez assim estava pela maquiagem. Assim que subiu ao palco começou a falar e com uma falca tranquilidade iniciou um discurso para acalmar a pequena grande multidão de furiosos, e com lágrimas nos olhos, o mágico deixou o picadeiro.
            Seu “camarim” era pequeno e apertado, um trailer velho, com persianas amarelas, um baú velho e uma cama meio rasgada, de tudo ali o belo smoking que ele vestia destoava, como se um roupa tão bonita não pertencesse a aquele lugar. O mágico entrou trailer tão consternado que nem percebeu o homem sentado ali, ele possuía aquela aparência que todos os imortais têm, que faz tão difícil se determinar qual idade eles tem, era como se fosse perfeitamente aceitável que ele tivesse 20 ou 50 anos, como se seu rosto fosse uma mescla de elementos de várias idades, o que o tornava tão peculiar e ao insondável.
            Quando o mágico entrou o homem sentado a cama sorriu, e com um leve pigarreio se fez notar.
-O que você faz aqui, o show já acabou e eu não dou autógrafos, tão pouco imagino que você queira um saía agora.
- Calma meu caro colega, ambos trabalhamos com o mesmo produto, apesar deu ser levemente mais bem sucedido.
-Você também é um mágico?
-Não, mas eu também vivo de ilusões.
-Eh... Olha só eu não estou entendendo o que você está falando, se você veio pra zombar de mim pelo ocorrido no picadeiro, isso não tem graça, por favor saía agora.
-Calma meu caro, eu vim para fazer uma proposta para você, afinal eu também tenho minha mágica. E com um movimento de mão fez aparecer um profusão de chamas, vermelhas como o inferno e algumas vezes, metamorfoseastes com cores que iam do verde escuro até o mais profundo dos azuis, passando por um negro que parecia não emitir luz, mas sim sugar a do ambiente para dentro das si.
            Assustado, o mágico circense  recuou, mas quando o homem sentado lá fez as chamas sumirem, um breve sorriso inevitavelmente se abriu em seu rosto, como ele sempre fazia, dês de criança ao ver um truque bem feito. E falou:
-Como você fez isso, foi... Foi o melhor truque que eu já vi. Você usa algum combustível ou algum tipo de pólvora especial?
-Não, isso foi pura magia meu caro, eu sou o acusador, mas também gosto muito de fazer barganhas, que tal fazermos um trato? Eu te ofereço qualquer coisa, dinheiro, mulheres, talento ou uma grande reputação. Você pode ser o maior mágico que o mundo já viu, e em troca eu quero apenas uma pequena parcela da sua vida, afinal quem não trocaria alguns anos de talento, um nome na historia ser o melhor mágico do mundo, por alguns poucos anos de vida. Você já está ficando velho, mas ainda é tempo, não desperdice essa chance aceite e você será incrível.
-Mas... O que você quem em troca?
-Que tal, alguns anos de sua vida, eu te ofereço uma década de sucesso, e por vim você parte desse mundo, como um mito!
            O mágico ficou meio reticente, mas se lembrou dos acontecimentos anteriores e de como tinha sido humilhado, e com a voz trêmula disse:
-Eu aceito.
            O velho diabo sorriu, se agitou levemente na cadeira, e falou:
-Pois então? O que você deseja?
            Com um meio sorriso no rosto, e com todo o corpo trêmulo o ilusionista falou:
-Eu desejo que todas as pessoas acreditem nas minhas ilusões.
            E com uma assinatura em um velho papel escurecido, com uma tinta vermelha como sangue, o acordo estava firmado.

            No dia seguinte o mágico acordou com um sorriso no rosto, fazia muito tempo que ele não se sentia tão bem e ele estava particularmente feliz, tomou seu café, preparou suas coisas e espero pelo incrível primeiro show da noite.
            A plateia estava muito maior que a da noite anterior, como se a notícia de sua falha tivesse atraído uma multidão, todos se agitavam como que esperando ele falhar. Mas isso não aconteceu. O que se seguiu foi uma profusão de truques rápidos, mágicas mirabolantes aplausos incríveis, bastava o mágico acreditar que uma coisa ia acontecer, que todos veriam o coelho saindo da cartola, ou que ele faria o maior show de sua vida, e todos assim acreditavam, até que por fim, o show acabou, e uma imensidão de gritos e aplausos o fez corar de alegria, seus olhos estavam cheios de lágrimas, mas dessa vez o motivo era outro.
            Ao se afastar do palco, quando ele rumava para o camarim viu uma mulher quase perto dele, a mulher pretendia ir embora, mas o mágico acreditou que ela viria falar com ele, uma linda moça impressionada por seu show, e ela por isso, também acreditou e logo veio falar com ele. A moça era bonita, tinha tez clara e cabelos enrolados, volumosos e um leve sorriso no rosto, ela chegou falando como o show havia sido incrível, e como voltária para o próximo dentro de uma hora para ver as mais incríveis mágicas do mundo.Porém a jovem dama era casada, e  enquanto eles conversavam o seu marido chegou, a princípio ele só queria dizer como achou o show incrível, porém o mágico acreditou que ele talvez estivesse com ciúmes, e que talvez ele estivesse com raiva, e que ele mesmo não gostaria nada de ver sua mulher, se ele tivesse uma, conversando com um homem de grande talento como e de habilidades tão mirabolantes. E nisso o marido também acreditou.
            O próximo show era em alguns minutos, e o mágico estava cada vez mais nervoso, uma espécie de paranoia o atingira e ele acreditava fortemente que o homem queria o assassinar. Começou uma busca pelo camarim, em busca de algo que pudesse usar para se defender, e se lembrou do velho revolver que possuía há tantos anos, e que tirando as poucas balas que gastara em um estúdio de tiro quando o comprou, nunca o utilizara antes, guardou a arma dentro de sua cartola e saiu para o show.

-Para esta mágica vou precisar de um ajudante, aquém com coragem para enfrentar o mundo da magia! Muitos levantaram as mãos, mas um homem em particular se levantou dos bancos e se encaminhou antes mesmo do mágico ter tempo de escolher. Esse homem era o marido.
            Eh... Bem meu caro, para este truque eu preciso que você entre nessa caixa de madeira, eu vou fazer a incrível mágica do desaparecimento!
E o homem entrou na caixa, com losangos rosa e amarelos, e assim que a porta foi fechada o mágico começou a pensar:
“Ele pode estar armado, com uma faca talvez.” E o marido sacou sua faca dentro da caixa.
“Ele pode me atacar assim que eu abrir a porta, eu tenho que fazer alguma coisa” Nesse momento não ocorreu ao mágico, que se ele realmente acreditasse que o homem dentro da caixa iria sumir, ele de fato o faria, só ocorreu ao prestidigitador que ele deveria pegar a arma de dentro da cartola, e alvejar seu carrasco.
E assim se seguiu: O marido dentro da caixa, saiu com um salto, porém antes que ele pudesse alcançar o mágico, este sacou a arma e disparou, o homem caiu e o sangue escorreu pelo chão, houve gritos na plateia e a multidão começou a correr desesperada para fora do circo, logo chamas tomavam conta da lona, e o mágico observava o homem morrer no chão.
A arma recém-disparada em sua mão estava vazia, mas o ilusionista não sabia.


Yarin S. de Melo

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Viagem a memória



Já fazia oito anos dês da última vez que eles escutaram seu nome, ele era um velho amigo, com certeza mais que um professor, e agora ele estava morto.     A noticia chegou a eles de forma tão inesperada quanto um raio fora da tempestade, ou como chuva em céu aberto, partindo um pouco mais a relação já rachada dos dois.
            Foram nas aulas dele que eles se conheceram, foi lá que sorriram de verdade um para o outro a primeira vez. O primeiro beijo veio depois da aula, e a primeira briga também, no início elas não eram tão constantes, mas com o passar do tempo eles acumularam quase tantas descorçoes quanto beijos, e mais lágrimas que sorrisos, às vezes simplesmente não dá certo...            Más eles simplesmente não queriam que com fosse assim, e fizeram da morte desse velho professor, a chance para voltar, como se o fim da vida dele pudesse dar uma nova chance ao amor já gasto, como se a morte pudesse da um inicio ao invés de um fim a esse historia.
            - Quem sabe às vezes a morte não possa fazer viver?
            Era o que ele pensava, enquanto dirigia o carro para cruzar a linha da cidade...
Um fato sobre aquele lugar, é que os que morriam não deixavam o mundo irremediavelmente, eles apenas partiam para viver em uma cidade distante, como se a morte fosse apenas se afastar. Qualquer um, desde que suficientemente disposto, poderia visitar aquela cidade, com o aviso é claro de permanecer apenas um breve tempo por lá, e era isso que eles pretendiam fazer. Dizem que a jornada naquela cidade é chamada de volta, não importa a direção que você vai, pois sempre se ruma para o que já se foi.
O funeral ali era diferente, ele se parecia mais com uma simples caminhada, onde se cruzava uma linha para a irremediável verdade da morte, uma breve caminhada em direção ao fim, um passo que jamais poderia ser desfeito. Nada muito diferente é claro do resto da vida, pois no fim, ninguém pode desfazer nada, e não se pode “desrespirar” o ar.
            Assim que avistaram a cidade perceberam. Havia alguma coisa nela, algo que existe em velhas fotos e em antigas recordações, como se a cidade inteira fosse feita de nostalgia e saudade, e assim que ultrapassaram a linha da cidade, todas as cores desbotaram...
            “- Dá cor das velhas lonas de circo” Ele pensou ao olhar para o azul do céu cinzento...

Não foi difícil encontrar o velho professor, que sorria o sorriso dos que agradecem pela vida dos filhos, e esperam pelo reencontro no ponto final. Eles foram bem acolhidos pelo mestre, que mesmo tendo partido com pouco mais de 40, apresentava toda a velhice da morte. Ele os ofereceu sua casa, um quarto, e um pouco de comida, mas essa última veio com o aviso da morte, de que quem come da comida do passado vive o fim mais que o início. E receberam por fim a indicação de nunca beber da água fria daquele lugar e de parti logo bem cedo, pois não era bom dormir mais que uma noite lá, a não ser que se desejasse o eterno sono.
             Era eminente a vontade de que tudo ficasse bem entre o casal, mas depois do primeiro abraço, quando isso não aconteceu, quando eles perceberam que aquilo não ia ajudar, uma estranha oquidão tomou conta do lugar onde antes eles estavam esperando colocar o regenerado amor, e ela, que sempre teve menos fé em tudo, saiu...
            Ele pensou em correr para junto dela, mas toda a vontade de suas pernas se foi junto com a esperança, e lá ele ficou desejando profundamente partir. Ficou no quarto toda a noite, com a constrangedora presença da lembrança, até que na manha ele se levantou. Mais algumas horas lá, e ele de fato estaria morto. Ele aguardou por ela, até se atrasar para o inicio da jornada rumo ao começo da cidade, quase junto à porta a avistou.
            Ela quis correr, ele tentou esperar, mas quando ela o alcançou já não havia mais a luz da vida em seu olhar, ela em uma festa de desapego bebera da água do local, e por mais que desejasse, não voltaria a ver o mesmo azul que ele, e o cinza do céu da cidade agora residia no vermelho de seu coração.       Ela jamais iria pedir, mas ele pensou em ficar, em voltar para as brigas pelo simples medo de largar o que foi.
            Foi preciso muita força para imaginar a vida sem ela, mais força ainda pra reconhecer que sem sua presença a vida desbotaria quase tanto quanto a morte, mas no fim em partir ele via esperança... Pensou em ficar, mas ela abandonará a vida por puro capricho, com a birra de quem não vê o amor, e ele não podia fazer o mesmo, então respirou fundo, olhou para o céu lá fora, e resolveu caminhar, largando ela, o desbotado amor e a morte no reino da memória, partindo para a vida, retornando para onde bate o coração.

Yarin S. de Melo